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“Matar o dragão” é um termo que ilustra o sentimento de quem sai do conforto de sua casa e das obrigações cotidianas para combater incêndios florestais.

Porque combater incêndios florestais na Chapada Diamantina?

Os focos de incêndio descontrolados atingem a biodiversidade e dos recursos hídricos da região da Chapada Diamantina, onde estão as nascentes dos rios Paraguaçu, de Contas, Paramirim, Salitre e Jacaré e alguns tributários do Rio São Francisco, um dos mais importantes do país.
Durante os incêndios, muitas turfas são queimadas, um tipo de solo orgânico formado em valas. Elas funcionam como esponjas, liberando a água gradualmente, impedindo que os rios fiquem secos no período de estiagem e que transbordem durante as chuvas.
Nos últimos grande incêndios (2015 e 2008), centenas de nascentes de água potável também foram queimadas e muita mata ciliar se perdeu. As áreas com vegetação têm capacidade muito superior na produção de água, ou seja, na captação, no armazenamento e na distribuição, enquanto nas áreas queimadas, a água escoa rapidamente. Alguns dias após a chuva, os rios e nascentes já estão secos, pois a bacia não tem mais a mesma capacidade para retenção. Somado a isso, os solos queimados ficam desprotegidos e são arrastados pela enxurrada para os rios, assoreando-os, afetando, inclusive, a qualidade da água. As primeiras chuvas irão levar as cinzas para a calha dos rios, e nelas estão contidos nutrientes, como fósforo e potássio, que contribuem para a proliferação de algas e bactérias, comprometendo o seu consumo.  
Na queima do solo, também vão embora matéria orgânica e microrganismos, elementos essenciais para o desenvolvimento de novas plantas. Em 24 horas de fogo, uma área com milhares de plantas, insetos e animais, transforma-se em um ambiente estéril, demorando dezenas de anos para se recuperar.  
O fogo chega a alcançar áreas florestais com mais de 50 anos de desenvolvimento e a vegetação que voltará a crescer é, normalmente, caracterizada por espécies oportunistas e exóticas, que irão competir com as nativas. Dessa forma os efeitos negativos acabam por se estender, alterando toda dinâmica ecológica das zonas atingidas.
A frequência, praticamente, anual de focos de incêndio, como vem ocorrendo no PNCD, não permite a recuperação da vegetação e que as árvores cheguem à fase adulta. Raros são os indivíduos que conseguem passar do estágio de mudas. Um jatobá, por exemplo, com 15 anos possui condições de resistência ao fogo, mas um de três anos, certamente não irá sobreviver.  
Os impactos ambientais também atingem a fauna, uma situação chocante. Ao caminhar em áreas recém-queimadas, encontramos cobras, macacos, pacas, tatus, veados e, até, filhotes de onça queimados. Para chegar aos focos de incêndio, os brigadistas relatam ser comum cruzar com diversos animais fugindo, desesperados, do fogo. Até um tamanduá correndo em chamas já foi visto.  
Os danos dos incêndios são inúmeros e grandiosos, além de possuírem um efeito cascata. Como se não bastassem as diversas perdas, tudo o que é queimado ainda se transforma em gás carbônico e em outros gases de efeito estufa (GEE). Apenas em novembro de 2015, foram emitidos mais de 250 mil toneladas de CO2 somente no Parque Nacional da Chapada Diamantina, de acordo com levantamento realizado pela equipe técnica da BRAL.
Dados de 2014 divulgados pela NASA mostram que nos últimos 64 anos, o semiárido brasileiro é uma das regiões do planeta que mais esquentou, elevando em 3 graus Celsius (Cº) sua temperatura. Enquanto a média mundial foi de 1,2 graus desde a revolução industrial. Os cientistas afirmam que não podemos extrapolar a média de 2 graus, pois as consequências podem ser desastrosas para a humanidade.
A redução das queimadas é estratégica na luta contra o aumento das temperaturas globais, assunto tratado em âmbito internacional na 21ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 21), que ocorreu em Paris, entre 30 de novembro e 11 de dezembro de 2015, com o intuito de validar um novo acordo internacional de corte de emissões de gases de efeito estufa.  
A manutenção dos estoques de carbono contidos na vegetação é fundamental, principalmente no Brasil, onde o desmatamento e os incêndios florestais são a principal fonte de GEE. Nesse sentido, projetos de reflorestamento e de prevenção devem ser fundamentais nas políticas nacionais de mudanças climáticas. O que combina com a urgência na ampliação e no fortalecimento de ações de prevenção e recuperação do Parque Nacional da Chapada Diamantina e seu entorno.


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